O grande problema não é a capa da Veja, somos nós.
Nos últimos dias a capa da revista Veja São Paulo foi alvo de críticas e piadas. Não é para menos, sob o ponto de vista de um bom projeto gráfico é um esculacho. Mas lá no fundo, sinceramente, não me assusto com ela. Ela é o retrato da promiscuidade gráfica que vem avassalando nosso campo visual, é a proliferação da imagem mal projetada e neglicenciada de uma produção minimamente satisfatória. É a banalização comum nos dias de hoje, tão comum que ninguém percebe, e quem percebe fica quietinho. E somos bons nisso.
O mais preocupante para mim é que quando surge algo como esta capa as pessoas se sentem perdidas. Entre os relatos pude ouvir: “Mas gente, o que tem de errado? Me explica?” ou ainda: “Mas não seria intencional?”.
Isto demonstra como estamos perdendo a capacidade crítica sobre o que vemos. As pessoas já não sabem distinguir o que é bom e o que não é, muitas vezes simplesmente aceitam, consomem, não param um segundo sequer para dar atenção ao que têm em mãos. Os próprios profissionais se perdem no universo nebuloso das defesas conceituais. Tantos conceitos gráficos já foram usados de forma totalmente distorcida, que parece que mesmo as pessoas que vivem disso já não conseguem mais defender o que fazem. Já presenciei Designers, em diversas etapas de sua vida profissional, que não conseguem criar um bom argumento do que estão projetando e assim fazem da frase “é esta a intenção” uma desculpa para algo que é verdadeiramente ruim.
Precisamos nos lembrar que um trabalho feito com a intenção de remeter a uma cultura específica não significa um trabalho de má qualidade. Em um rápido passeio pelo centro de São Paulo podemos presenciar indícios extremamente ricos de uma produção cultural de massa, com belíssimas e inusitadas composições tipográficas encontradas em lambe-lambes e homens-placa.
A capa da Veja não é o problema, ela é o resultado. O resultado de profissionais que estão condicionados a entregar e não sendo críticos, chefes que apertam os prazos de produção e não se importam com qualidade, instituições de ensino que empurrar pessoas despreparadas no mercado e consumidores robotizados que não têm capacidade de separar o joio do trigo.
Estamos nos tornando analfabetos visuais, e isto não entra em nenhuma pesquisa.
